Mumificação: como eram feitas as múmias, o porquê e o ritual

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Se há um lugar que encanta gerações e mexe com a imaginação de todos é o Antigo Egito. Além de construções monumentais, foram os egípcios que aproximadamente em 3.500 a. C. começaram o processo de mumificação. Mas você sabe o motivo e como conservavam os corpos por tantos mil anos?!

Múmia
Múmia. Crédito: Smallbones.

Acredita-se que, como a região do Egito é bastante árida, os corpos eram bem preservados na areia, possivelmente a ideia de mumificar surgiu daí.

A Palavra

Múmia vem do latim mummia que por sua vez veio do persa mum que significa cera, betume, no sentindo de corpo embalsamado com algo como cera. Também há a relação com a palavra mummyia, de origem árabe.

O motivo

Na região do Alto Egito, por volta de 5.000 a.C., durante a era Badariana, foram encontradas Tumbas com oferendas (comida e objetos). Ainda os corpos não eram mumificados, mas já havia a preocupação como a vida após a morte. O mesmo acontecia na Mesopotâmia, em que os corpos eram enterrados na casa da família ou próximo.

Durante a I Dinastia Egípcia, eram comuns as mastabas. Mastaba significa casa para eternidade, elas substituíram as tumbas comuns enquanto os cemitérios se tornaram mais comuns. A ideia da mastaba era refúgio eterno para o corpo, no qual a alma seguiria dali para o além, a vida após a morte. No entanto, havia uma questão: o corpo deveria ser mantido intacto ao longo dos anos para a alma cumprir sua jornada.

Mastaba
Mastaba do Faraó Shepseskaf. Crédito: Jon Bodsworth.

E mais, as tumbas eram pintadas para orientar as almas para sua chegada no Além. Essas pinturas continham trechos e histórias do Livro dos Mortos. As inscrições das Pirâmides e do caixão revelavam também detalhes da vida do morto. O corpo era preparado para que quando a alma acordasse, se reconhecesse.

Mais tarde, por volta 2.600 a.C. até 2.100 a.C., durante o Império Egípcio, a mumificação se tornou procedimento padrão. Os rituais feitos eram devido a adoração ao deus Osíris, que era muito popular nesse período.

O mito
Osíris e Ísis
Osíris e Ísis.

Osíris e Ísis representavam o equilíbrio e igualdade entre o homem e a mulher, foram os primeiros seres míticos a governarem o Egito após a criação do mundo, assim acreditavam.

O irmão de Osíris, Set, por inveja de Osíris, matou-o e cortou-o em pedaços, depois o jogou no Rio Nilo. Ísis recuperou e juntou todos os pedaços e, com ajuda de sua irmã, Néftis, o trouxe de volta a vida. E como acidentes acontecem e a vida não é fácil, um peixe comeu seu pênis, por esse motivo, ele não pode mais governar.

O filho de Osíris, Hórus, que havia se tornado o senhor do Submundo, vingou seu pai e tomou seu lugar, assim restabelecendo o equilíbrio.

A mumificação seguia o padrão de Osíris, que era representado pelas cores verde e preta, significando morte e ressurreição.

Lembrando, a vida após a morte só era possível se o corpo estivesse intacto. Seu nome e sua identidade representavam sua alma, portanto, a identidade estava ligada a forma física.

O barato poderia sair caro?

Havia uma variedade de serviços oferecidos, segundo Heródoto, eram três: o mais caro era o serviço a exemplo de Osíris, o segundo era inferior e mais barato e o último o mais barato de todos.

O mais curioso, se a família que pudesse oferecer o processo mais caro e melhor, mas escolhesse um inferior, corria o risco de ser perseguida pelo morto. Olha, era um marketing e tanto! A família passaria maus bocados até que eles consertassem seu erro. Acho que correria esse risco (rs)…

Embalsamando corpos
Múmia de Ramsés
Múmia de Ramsés. Crédito: G. Elliot Smith.

O principal ingrediente era o Natrão, também conhecido como sal divino. Um mineral a base de carbonato de sódio hidratado e era encontrado em várias partes do país. Adiantando, o corpo ficava imerso nesse sal por 70 dias! O natrão ajudava a dissecar o corpo e tirar sua gordura também.

O mais caro era assim: o cérebro era retirado através de um gancho de aço e o que permanecia por lá era lavado com drogas. Muitas vezes, o nariz era quebrado para aumentar a passagem. Não era o método preferido, pois poderia desconfigurar o indivíduo, rompendo com a ideia de preservar o corpo.

Depois faziam cortes com facas na região dos flancos, a parte lateral da cintura, conhecido como pneuzinho! Aí retiravam todo conteúdo do abdômen, lavavam com vinho de palma e depois com infusão de pimentas. Enchiam essa área com mirra, cássia e outras substâncias aromáticas, exceto incenso. Costuravam o corpo e submergiam no natrão pelos 70 dias.

Depois dos tantos dias no natrão, lavavam o corpo e embalavam todo corpo em tiras de linho com goma, betume, espalhada na parte interna. O corpo era devolvido a família que enterraria num caixão de madeira em forma de uma figura humana.  Acredita-se que usavam de 300 a 500 metros de tiras de linho fino.

O “médio” caro: ninguém fazia incisões, o intestino permanecia no corpo. Uma seringa injetava um óleo de cedro através do ânus para evitar que algum líquido vazasse. Mais 70 dias no natrão, o líquido era drenado. As vísceras se transformavam em líquido, só restava pele e osso. Retornavam o corpo a família sem mais cuidados.

O de “probinho” era apenas fazer a lavagem interna e deixar no natrão pelos 70 dias.

A mumificação era feita nos Per-Nefer, uma espécie de tenda. Também conhecido como Casa de Purificação.

Múmia de Animais
Múmias de animais.
Crédito: Mario Sánchez, CC2.0

Provavelmente, já tenham ouvido que os egípcios tiravam os órgãos internos para preservar o corpo e guardavam os órgãos em jarros, pois acreditavam que os mortos precisariam deles. Os jarros eram deixados junto a tumba e apenas o coração era deixado, porque continha o Ab, que era a fonte da bondade e da maldade, a personalidade e identidade do indivíduo.

O procedimento também era feito em animais, como em cachorros, gatos, gazelas e outros animais quando considerados como a reencarnação de divindades.

Cada período no Egito Antigo teve suas peculiaridades, como na Dinastia Raméssida em que os órgãos genitais eram retirados e substituídos por uma urna no formato de Osíris.

Vasos Canopos
Vasos Canópicos. Crédito: Nina Aldin Thune, CC2.5

Os vasos, jarros canópicos (ou canopos) eram protegidos por Mesu Heru, ou seja, pelos quatro filhos de Hórus. Nesses jarros, os órgãos eram embebidos em resina. O fígado era deixado com Imseti (tinha cabeça humana), os pulmões com Hapi (cabeça de babuíno), Duamutef ficava com o estômago (cabeça de chacal) e o intestino e as vísceras com Kebechsenef (cabeça de falcão).

O embalsamador chefe vestia-se Anúbis para abençoar o morto enquanto os sacerdotes rezavam.

Opcionais: os que escolhiam o procedimento mais caro, poderiam receber amuletos e, ao invés de simples caixões, sarcófagos. Os mais simples, poderiam usar o “linho de ontem”, a família dava a roupa do falecido para embrulhá-lo. Tal nome acabou pegando e foi empregado para todas as tiras.

Alguns autores, dizem que os olhos eram cobertos por bolas de linho ou substituídos por olhos de vidro.

Curiosidade: o egiptólogo Robert Brier, conhecido como Mr. Mummy, é conhecido por ser o primeiro em 2.000 anos a realizar o mesmo procedimento que os egípcios utilizavam em um cadáver humano. Além disso, ele já teve a oportunidade de estudar muitas múmias famosas.

Ritual

Quem podia ($), fazia um funeral público e contratava mulheres para chorar o morto, profissionais de luto! Eram conhecidas por “Papagaios de Néftis”, estavam ali para alimentarem o sentimento de luto. Quando morrer, vou precisar contratar umas dessas!

Sendo rico ou pobre, eram deixados bens, objetos no túmulo. Um item muito importante eram os shabtis, uma estátua mortuária em formato de múmia, sendo para substituir o falecido em seu trabalho agrícola ou qualquer outra tarefa que esse o fazia. Para eles, o paraíso era a versão perfeita da vida em terra e isso incluía o trabalho. Agora, me pergunto o que os embalsamadores iriam fazer no paraíso. Basicamente, o shabti trabalhava enquanto a alma relaxava! Uma indicação do poder aquisitivo eram os números de shabti.

Shabtis
Shabtis de Neferibreheb. Crédito: Serge Ottaviani, CC3.0

Não só os shabtis eram enterrados com as pessoas, assim como itens considerando a necessidade da vida após a morte, desde escovas, pão, joias e cervejas até armas e seus bichinhos de estimação.

Antes de selarem a tumba, faziam a Cerimônia da Boca Aberta, no qual invocavam Ísis e Néftis para a ressurreição. Ungiam o corpo tocando várias partes do corpo com vários objetos, como facas e cinzeis. A intenção era restaurar a boca, olhos, ouvidos e nariz.

O filho e herdeiro do falecido fazia um sermão ligando a história do morto com a de Osíris e Hórus. Após o ritual, o falecido poderia ouvir, falar, ouvir e continuar sua jornada para o Além. Então, fechavam o sarcófago ou o caixão e enterravam num túmulo ou numa tumba.

Quer conhecer algumas pirâmides do Egito e do mundo: Visite:

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