Você sabe o que foi a minúscula carolíngia?

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A história da evolução da escrita praticamente corresponde a própria história humana. Mas um acontecimento particularmente importante ocorreu na Europa por volta do ano 780: o surgimento de uma nova forma de letra minúscula nos manuscritos produzidos pela corte de Carlos Magno, que ficaria conhecida como minúscula carolíngia.

Manuscrito Carolíngio
Manuscrito da obra de Hincmar de Reims datado do século IX. Manuscrito: BNF Latin 12132, fol. 94v-95

A Conquista Carolíngia

Como aprendemos na escola, por volta de 751, Pepino, o Breve, assumiria o trono do Reino dos Francos e daria início a chamada dinastia carolíngia, que governaria quase que a totalidade da Europa até o fim do século IX. Inicialmente o Reino dos Francos compreenderia a região onde hoje se situa a França e parte da Alemanha. O reinado de Pepino passou a expandir esse território através da conquista e anexação dos reinos vizinhos. Entretanto, essa expansão teria chegado ao seu ápice com o reinado de seu filho, Carlos Magno, que viria a ser coroado imperador em 800.

Expansão Carolíngia
Mapa da Expansão Carolíngia. Imagem de Sémhur, com licença CC BY-SA 3.0.

Um dos problemas gerados por essa expansão era como manter a coesão dos territórios recém conquistados, sob a tutela de um mesmo soberano. Entre as medidas tomadas por Carlos Magno, encontravam-se a educação dos nobres e a difusão da língua escrita por todo o território, o que viria dar origem ao chamado Renascimento Carolíngio.

Mas, para atingir esse ideal, os intelectuais reunidos na corte do soberano carolíngio deveriam lidar com um dos grandes problemas da época: como garantir a difusão de textos de maneira uniforme por todo o território europeu em uma época em que o único recurso para criar novas edições é a cópia manuscrita?  Além de questões como as variações linguísticas existentes nas diversas regiões europeias, outro problema dizia respeito a própria legibilidade dos textos.

Foi nesse contexto que foi criada a letra minúscula carolíngia, como uma forma de padronizar a escrita realizada em todo o império e aumentar sua legibilidade. Com essa nova caligrafia, era possível difundir textos legíveis por toda a Europa.

Comparação manuscrito merovíngio e carolíngio
Comparação entre um manuscrito que utiliza a escrita merovíngia (esq.) e manuscrito composto com a minúscula carolíngia (dir.).

Feudalismo

Entretanto, a história da relação entre a letra minúscula criada pelos carolíngios e a nossa não termina aí. Novamente, os eventos políticos na Europa medieval acabam por impactar a cultura e a tipografia. Ao longo do século IX, os netos de Carlos Magno passaram a lutar entre si pelo controle do território europeu e foram responsáveis por fragmentar o império, a Europa assistiu o surgimento de diversos poderes locais, sem que houvesse uma liderança imperial capaz de dar unidade ao território como no período carolíngio.

Esse fenômeno deu origem ao período que denominamos como feudalismo, marcado por acentuadas diferenças regionais que, inclusive, viriam a dar origem as diferentes línguas europeias. Essas diferenças também podem ser vistas na evolução da escrita: nas regiões que viriam assistir ao domínio de línguas germânicas, a minúscula carolíngia se metamorfoseou na escrita gótica, utilizada até hoje em publicações como o New York Times.

 

Logo do New York Times

Renascimento

No século XV, na Itália Renascentista, os humanistas buscavam formas de recriar elementos da cultura greco-romana. Entretanto, ao tentar reconstruir a escrita romana, esses estudiosos empregaram manuscritos medievais, produzidos com a minúscula carolíngia. Por associar apenas as letras góticas à Idade Média, eles acreditaram que a minúscula carolíngia representava realmente o latim como era escrito pelos romanos. A consequência disso foi o ressurgimento da minúscula carolíngia e sua utilização pelos renascentistas como aquilo que denominamos de família de tipografia romana, da qual derivam as fontes utilizadas nos computadores hoje em dia, como Times New Roman e Garamond.

Fontes:

DUDLEY, Leonard. Information Revolutions in the History of the West, 2008. (Google Books https://books.google.com.br/books?id=jLnPi5aYoJUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR)

GANZ, David “The preconditions for Caroline Minuscule”, Viator, 18, 1987. (DOI: 10.1484/J.VIATOR.2.301384)

BNF – Gallica : Les trésors carolingiens  – http://expositions.bnf.fr/carolingiens/

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